A IA não quer substituir o humano (ainda), e sim o tornar mais inteligente

 

Imagem gerada pela IA do WordPress a partir do comando “artificial intelligence”

Profecias por si só já são controversas, mas a questão não é exatamente essa.

O melhor a dizer seria que “o propósito com a IA é tornar os humanos mais inteligentes’. Ou, em outras palavras, “a IA não busca replicar a cognição humana; ela visa expandir a capacidade de processar informações em escala e velocidade que humanos não podem alcançar” (Raulino, 2024).

A problemática está é na antropomorfização da tecnologia (Röhe, 2024).

É a IA quem sente, raciocina, tem (auto)consciência, quer e deseja alguma coisa? Ou é o humano quem intenciona nos tornar mais inteligentes a ponto de superar a Deus ou até a nós mesmos?

É aí, então, que nos deparamos com “quarta ferida narcísica” aludida por Lucia Santaella e Dora Kauman (2024).

Se nas primeiras revoluções industriais o papel da máquina era auxiliar o trabalho braçal dos humanos, agora parece ser o de aliviar o trabalho mental (ou ao menos se tentar aliviar, ao invés de, na prática, nos tornar ainda mais estressados e sobrecarregados).

Como diria Santaella (2023), “que sirva de exemplo o ludismo, movimento que ocorreu na Inglaterra durante o século 18, como reação dos trabalhadores braçais contra as máquinas de tear”, visto que novas tecnologias quase sempre provocaram algum tipo de reação humana: da mera curiosidade, perpassando pelo espanto até chegar ao medo de sua aniquilação, pela ameaça de nos substituir, superar ou mesmo nos (auto)destruir.

Mas se a primeira ferida narcísica se referia ao planeta Terra não mais como centro do universo, a segunda veio com Darwin, quando os humanos se depararam com o fato de que eles mesmos estavam “na sequência evolutiva dos seres vivos”, e a terceira surge com a Psicanálise através de Freud, no que consiste a quarta ferida?

Segundo Santaella (2023) “propõe-se agora que o narcisismo humano, seu exacerbado orgulho, a duras penas conservado, com a IA, em especial com esse Chat que conversa como se fosse gente, está sob efeito da sua quarta ferida”. E esta “está doendo muito” para os humanos. Sobretudo com o advento dessa outra inteligência, só pelo receio ou já mal-estar de um dia tenham de reconhecer que (supostamente) exista outro ser dotado de inteligência que não a humana.

Referências

RAULINO, Fabiana. Cuidados importantes com Pseudo-Pensadores e Profetas da Tecnologia. Linkedin, 20 set. 2024. Disponível em: <https://www.linkedin.com/pulse/cuidados-com-superficialidades-nem-todo-diploma-ou-ve%C3%ADculo-raulino-xedsf/>. Acesso em: 4 set. 2024.

RÖHE, Anderson. A Antropomorfização da Inteligência Artificial: como e por que humanos julgam as máquinas. In: O Mal-Estar da Cultura – Revisitado. Algoritmos do Mal-Estar. Cap. 12, p. 183 – 199. Org. Lucia Santaella. – 1 ed. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2024.

SANTAELLA, Lucia. A IA e a quarta ferida da humanidade. SBC Horizontes, 20 abr. 2023. ISSN 2175-9235. Disponível em: <http://horizontes.sbc.org.br/index.php/2023/04/quarta-ferida>. Acesso em: 4 set. 2024.

SANTAELLA, Lucia; KAUFMAN, Dora. A Inteligência artificial generativa como quarta ferida narcísica do humano. MATRIZes, São Paulo, Brasil, v. 18, n. 1, p. 37–53, 2024. DOI: 10.11606/issn.1982-8160.v18i1p37-53. Disponível em: <https://revistas.usp.br/matrizes/article/view/210834>. Acesso em: 4 set. 2024.

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