Uma fábula sobre Inteligência Artificial

A.I. – Artificial Intelligence (2001) / Director: Steven Spielberg

Baseado em um conto de Brian Aldiss, A.I. – Inteligência Artificial (2001) é um filme de ficção científica dirigido e roteirizado por Steven Spielberg, a partir de um projeto de Stanley Kubrick, acerca da possibilidade de criação de máquinas dotadas de sentimentos.

Segundo a trama, no futuro o mundo estará parcialmente submerso pela elevação do nível dos mares, fazendo com que androides passem a conviver com os seres humanos. Ocasião em que um grupo de cientistas da empresa Cybertronics cria o androide David, um robô em formato de criança que é programado para amar aqueles que se tornem seus pais.

Na iminência de perder o único filho em coma e desenganado pelos médicos, o casal Swinton adota o androide na tentativa de suprir a falta do filho biológico que, enfim, se recupera. Posteriormente, em um episódio em que David não teve culpa, este é acusado de ser uma ameaça à família que o adotou. A mãe, então, decide abandoná-lo, a fim de evitar seu descarte pela empresa fabricante, assim como sua destruição por pessoas temerosas que as máquinas dominem o planeta e ultrapassem a inteligência humana (Kaufman, 2019).

A partir daí, David se envolve em uma longa jornada – acompanhado por um androide gigolô e urso de pelúcia também programados para raciocinarem de forma autônoma – cujo objetivo era encontrar a Fada Azul, um ser mítico que realizaria seu sonho de se tornar uma criança de verdade. Sem saber por onde começar e encontrá-la, visitam o Dr. Know (ou Doutor Saber), um supercomputador falante, parecido com Albert Eistein e dotado de alta tecnologia que responde e dá informações a tudo que se queira saber, como se fosse uma espécie de oráculo ou gênio da lâmpada que sabe de tudo e atende a um certo número de perguntas e respostas. Porém, desde que se pergunte de maneira específica, o mais precisa e adequada possível.

No decorrer do filme, a partir de 1h26m de película, chama a atenção uma determinada cena em que David, auxiliado pelo androide gigolô, dirige duas perguntas ao Dr. Know. Contudo, as perguntas são realizadas sem referências ou maior embasamento, o que não gera a resposta esperada; pois, ao se referirem à “Fada Azul” (o que hoje viria ser um prompt ou comando), Dr. Know equivocadamente primeiro atribui aquela a uma flor e, depois, a um serviço de acompanhamento. Somente após combinarem determinadas palavras-chave é que os dois obtém a informação acertada: a de que David pode se tornar humano, vir a ser um menino de verdade e, enfim, ser amado por sua mãe; pois há o registro de que um ser inanimado já ganhou vida pela Fada Azul, em alusão à fábula “Pinóquio”, de Carlo Collodi.

Quando o trio se dirige, então, à Manhattan (agora, uma cidade-fantasma e local onde as pessoas conhecem como o Fim do Mundo), David esse depara com uma cópia, se exaspera por não ser o único ser de sua espécie e o destrói, pensando se tratar de um protótipo. Mas, em seguida, descobre que “não passava duma máquina igual a ele (…) e, que não é possível que se torne numa criança de verdade”. Constatando que é um ponto sem retorno, sem poder realizar seu sonho de se tornar humano e reencontrar sua mãe, David tenta o suicídio, se atira no amar e fica submerso por dois mil anos; período em que o planeta entra em uma era glacial. Desta feita, os seres humanos já não existem mais e apenas as máquinas sobreviveram, usando de sua inteligência avançada para se reconstruírem e se tornarem seres superinteligentes.

É, portanto, o enredo deste filme, em especial, que serve como insight e ponto de partida do autor para elencar as questões problematizadas neste(s) ensaio(s). Relacionando o personagem do Dr. Know (Doutor Saber) ao que veria a ser, na atualidade, uma IA Generativa: dispositivos que são, de fato, capazes de criar textos informativos e imagens sintéticas; contudo, com certas limitações criativas, semânticas, cognitivas (Santaella, 2022) ou até mesmo temporais (no começo o ChatGPT se valia de bases de dados até setembro de 2021). Visto que o usuário precisa saber como, o porquê e principalmente aquilo que se está perguntando. Do contrário, não receberá o conteúdo (texto, vídeo e imagem) desejado, já que é da combinação de saberes humano-máquina que se obtém a informação ideal ou mais próxima do esperado (Santaella 2005; 2023).

Referências

IMDb. A.I.: Inteligência Artificial. Disponível em: https://www.imdb.com/title/tt0212720/

KAUFMAN, Dora. A inteligência artificial irá suplantar a inteligência humana? Barueri:Estado das Letras e Cores, 2019.

SANTAELLA, Lucia. A Inteligência Artificial é inteligente? São Paulo: Almedina, 2023.

______. Neo-Humano: a sétima revolução cognitiva do Sapiens. São Paulo: Paulus, 2022.

______. Pensar a Inteligência Artificial: cultura de plataforma e desafios à criatividade. RIBEIRO, Daniel M.; ALZAMORA, Geane (Orgs.) Belo Horizonte: Selo PPGCOM UFMG, 2023.

______. Por que as comunicações e as artes estão convergindo? São Paulo: Paulus, 2005.

WIKIPEDIA. A.I. – Inteligência Artificial. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Intelig%C3%AAncia_artificial.

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