O que significa um Prêmio Nobel para a IA?

Incentivo para maior investimento na área, acirrando a corrida para o desenvolvimento futuro de uma IA Geral , ou superestimar seu verdadeiro alcance e potencialidades?

Imagem extraída do perfil The Nobel Prize do Linkedin Brasil

É a pergunta que se faz hoje sobre qual o futuro possível para a Inteligência Artificial. Sobretudo após a entrega do Prêmio Nobel 2024 em Física e Química.

Particularmente em Física, muito embora tenha laureado não a IA propriamente dita (pois ai estaríamos antropomorfizando-a), mas o trabalho de pesquisadores que dela se utilizaram como “atalho” para alcançar o resultado de um estudo sobre o desenvolvimento de machine learning ou “o chamado aprendizado de máquina” que não data de agora, e sim do “início dos anos de 2010”, dando continuidade a uma linha de raciocínio que caminhava décadas atrás com seus predecessores.

E, no fundo, é sobre isso: acerca do uso e desenvolvimento da Inteligência Artificial como recurso e ferramenta auxiliar disponíveis. Não exatamente para substituir a inteligência humana (desencadeando um discurso sensacionalista e nos dias atuais até falacioso de certa maneira), mas para hoje alavancar o conhecimento adquirido pelos humanos e nos tornar mais inteligentes, seguindo o argumento de um artigo meu anterior.

Isto é, ao referir à IA como método para se alcançar algo falamos sobre aprendizado de máquina que usa redes neurais artificiais, uma tecnologia originalmente inspirada pela
estrutura do cérebro humano. Todavia, é aí que as opiniões se dividem: enquanto para os céticos seria mais uma tentativa vã de mimetizá-la, visto que jamais cogitam de que isso seja possível, já para os entusiastas não é uma questão de “se”, mas de “quando” será alcançada a equiparação intelectual/cognitiva entre máquinas e humanos.

É, então, por conta das diferentes perspectivas e abordagens interdisciplinares sobre a Inteligência Artificial que a premiação desse ano antes de ser pacífica foi um tanto ambígua e controversa. Controversa pelo fato de um dos pesquisadores não ser um físico de formação (e, ao que parece, não foi empecilho para a sua nominação). E ambígua porque não se sabe ao certo se a premiação foi um aceno à indústria ou à academia.

Dentre os debates, o ato de superestimar a IA justificaria maiores investimentos na área. Por outro lado, o melhor não seria evitar elucrubações e sim se preocupar com os riscos reais dela decorrentes? Não seria, portanto, um dinheiro melhor investido em combater riscos já existentes do que continuar financiando produtos de alto custo sem um retorno concreto, esperado e/ou efetivamente comprovado?

Principalmente porque desencadeia uma série de questionamentos, tais como o debate sobre o uso e desenvolvimento ético e responsável da Inteligência Artificial. Sobretudo acerca de seu real alcance e potencialidades na atualidade.

Ao final dessas colocações, restam então dúvidas e inquietações de o que exatamente significaria um prêmio Nobel em IA. Dentre as quais aponta-se ao menos três hipóteses:

a) seria um sinal verde de reconhecimento de um importante campo do conhecimento que está revolucionando a ciência. Para que se invista ainda mais em pesquisas, instigando uma disputa para lá na frente se alcançar a Inteligência Artificial Geral – IAG ou a tão aguardada singularidade (situação hipotética de que no futuro a IA alcançará ou suplantará a inteligência humana). Digo hipotética pois por enquanto não há evidências científicas de que isso seja possível (exceto pela discussão acima aventada);

b) um sinal amarelo pois, apesar do Nobel merecido, é preciso que se aguarde com cautela os resultados esperados com a IA, já que o momento atual é de transição de uma tecnologia não totalmente amadurecida em seu pleno alcance e potencial. Sendo ainda incertos seus impactos. Cenário que gera mais um quadro de incertezas do que de certezas absolutas;

c) e, na pior da hipóteses, um sinal vermelho que põe em xeque o verdadeiro propósito com tal premiação e/ou reconhecimento: se de natureza intelectual ou política.

Na primeira, está resguardada sua legitimidade e credibilidade. Já na segunda, serve de “bode expiatório” para que se interrompam, de fato, o uso, desenvolvimento e estudos mais avançados em IA. Visto não teríamos condições ainda de debatê-la ética, moral e adequadamente sem a interferência dos lobbies da indústria; ou mesmo por questões práticas, por ainda serem imprevistos os alcances de seus saltos tecnológicos e desdobramentos a longo prazo.

Pois, no pior dos cenários, esse pânico moral seria acolhido como justificativa para que se suspenda ou impeça o desenvolvimento de uma tecnologia tida por uns como arriscada, demasiadamente disruptiva, visto que os malefícios dela resultantes não compensariam os benefícios proporcionados à sociedade.

Não por acaso, Geoffrey Hinton, um dos laureados pelo Nobel em Física e conhecido como the Godfather of AI ficou surpreso com o prêmio porém não ficou indiferente com a sua repercussão. Assim, em seu discurso de agradecimento, ressaltou tanto os avanços quanto alertou sobre as ameaças, preocupado com os rumos que a indústria está dando ao desenvolvimento da IA – muitas vezes a qualquer custo – sobretudo por conta do risco em potencial de as novas tecnologias sairem do controle humano.

Por fim, há a tendência em se acreditar que o aceno do Nobel foi a ambos, tanto à indústria quanto à academia, na tentativa de angariar esforços conjuntos junto a uma cooperação intersetorial/multistakeholder.

Disso posto, resta aguardar para saber quais dessas expectativas irá prevalecer: se a partir de agora estará aceso o semáforo verde, amarelo ou vermelho para a Inteligência Artificial.

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