Precisamos situar a IA no tempo e espaço [Ato 1, ChatGPT]

Imagem gerada pela IA do WordPress a partir do comando: “hype ou criti-hype da Inteligência Artificial”.
  • O que estamos falando sobre o estado atual da IA? Note que o uso da 1a pessoa no plural não é por acaso, pois é preciso refletir sobre o Brasil.

Atualmente telejornais, manchetes de revistas, blogs acadêmicos/não acadêmicos e até artigos de referência estampam chamadas apelativas quando procuram informar sobre o “estado atual da IA“. Ou, em outras palavras, “em que fase estamos” em termos de usos e desenvolvimento da tecnologia ou mesmo de tramitação de diretivas ou projetos legislativos que procuram regulá-la. Algo que é louvável e extremamente importante nesses tempos de desinformação. Mas que ao fazê-lo de forma chamativa também contribuem para que essa confusão permaneça, seja inflacionando ainda mais o hype em torno da IA ou, ao revés, dando a impressão que “o trem da IA está descarrilhando“. Tanto que há até um nome para isso: criti-hype.

A confusão é tamanha que foi preciso criar ferramentas para apurar o estado da arte atual ou mesmo medir o que é “hype ou realidade” para que não se caia nesse imaginário de promessas vazias ou entusiasmos ao extremo com a IA.

Então, a primeira pergunta a fazer é: o hype da IA está mesmo arrefecendo?! Adianto que há um tanto de desonestidade intelectual circulando por ai, pois, mesmo sabendo que não há motivos para tantos alarmismos, muitos continuam a fazê-lo para causar comoção, clickbait (ou pânico moral, se preferirem). Sobretudo pelo tom irresponsável e inconsequente que está sendo dado à questão. Afinal, se a tecnologia está realmente avançando a ponto de não se saber até aonde irá chegar, os ganhos com esse tipo de notícia são para quê(m)?

Tal preocupação nasce primeiro ao se questionar “quem realmente está obtendo resultados com a IA ​​e por quê?“. Já que este alarido parte principalmente daqueles que de fato injetam dinheiro nas pesquisas e financiam o seu desenvolvimento, segundo artigo recente da professora Dora Kaufman, autora de ‘A inteligência artificial irá suplantar a inteligência humana?’ e ‘Desmistificando a inteligência artificial’ que “casam como uma luva” nessas discussões. Recaindo, então, na segunda e terceira questões: quem está com a razão? E há mesmo motivos para fazê-lo? Vamos por partes!

Parte 1. O mercado é movido por expectativas; Parte 2. Nem todo discurso é o que aparenta ser. Parte 3. Os usos e desenvolvimentos da IA são impulsionados por momentos ou ciclos de maior ou menor “empolgação”. E Parte 4. Quais os rumos da IA no Brasil e para o mundo (onde a IA está mais “adiantada” em pesquisas, debates regulatórios e sobretudo influenciados por quem e quais conjunturas).

* Por questões didáticas esse ensaio será dividido, portanto, em dois atos (sim, agora é o momento de contextualização e, em seguida, o prenúncio do que está por vir).

  1. O mercado é movido por expectativas:

Em Economia muito se fala que o mercado é movido mais por expectativas do que a realidade factual. Ou seja, muitos anúncios rondam o imaginário coletivo mais por força do discurso e de construções narrativas do que refletem o momento atual. E sim projetam caminhos possíveis para um futuro próximo, porém ainda não concretizado, mas que ao menos se aguarda que aconteça.

Com a Inteligência Artificial – que está na ordem do dia – não seria diferente! De séries especiais do programa Fantástico, como “Mentes Digitais – a era da inteligência artificial”, a entrevistas com o empresário e também cientista da computação Kai-Fu Lee que tão bem articula a ponte entre as duas comunidades, muito se especula sobre o que está por vir com a “nova” tecnologia.

Em O desafio de uma regulação realista para IA, os professores Francisco Gaetani e Virgílio Almeida refletem sobre essa necessidade de, nós brasileiros, igualmente entrarmos nesse debate, mas sem deixar de sermos pragmáticos e realistas face às variáveis envolvidas na atual conjuntura do país. E que momento é esse? O de discutirmos (pra já) uma regulação em Inteligência Artificial. No entanto, o “pra já” é que se revela problemático e tratado anteriormente por mim em O que é melhor? Uma lei ruim ou nenhuma lei sobre inteligência artificial? No sentido de qual o melhor cenário para os brasileiros: a existência de alguma previsão legal, sabendo que ainda incompleta, podendo aos poucos ser aperfeiçoada ou nada concreto a respeito, nos deixando vulneráveis, à mercê de que outras potências legislem por nós?

A necessidade imperiosa de um marco legal em IA no Brasil advém, então, de uma série de acontecimentos direta/indiretamente elencados por aqueles autores: primeiro, 2024 foi um ano atípico, marcado por grandes ciclos eleitorais em todo o mundo, com a ascensão de extremas direitas e tecnocratas ao poder, culminando com a vitória de Donald Trump nos EUA (fato que por si só gera “incertezas e indeterminação de trajetórias” para 2025, sobretudo quando se pensa em cenários prospectivos de regulação tecnológica, visto que os grupos de interesses que chegam ao poder ano que vem estão mais propensos ao lobby da autorregulação ou, ao menos, da flexibilização das propostas regulatórias que estão em tramitação).

Ademais, fomos sede do G20 e o Brasil se arvorou do papel de porta voz do Sul Global para dar o seu recado ao mundo. Embora as demandas desse Sul sejam muito diversas para que os BRICS sejam dele totalmente representativo (sobretudo quando internamente há diferenças de agendas e prioridades entre os próprios membros. China, Rússia e Índia que o digam).

Chegando-se à conclusão, ao final da cúpula, de que algo deve ser feito, nem que a título de experimentalismo, através de novas abordagens, diferentes das que estão em andamento em termos propositivos de “governança provisória, flexibilização de regras e processos de abertura“. Por agora se discordar dos rumos que estavam sendo dados para a regulação da IA. E as vozes vem paradoxalmente da própria União Europeia, pioneira no assunto.

Digo “agora”, justamente por não haver momento ideal para a formulação de uma infraestrutura regulatória em IA. Diante do impasse em como atingir o equilíbrio entre inovação, competitividade das grandes empresas e interesses das plataformas digitais com o rule of law e os direitos individuais, fundamentais para seus usuários. Debate também tratado por mim em Metadados e o Dilema de Collingridge: como compatibilizar novas tecnologias e direitos fundamentais na Sociedade da Informação.

Ocorre que no Brasil, em particular, essa visível mudança de rumos via concessões, pedidos de flexibilização do texto original do PL 2338/2023 em sinal de aceno maior à indústria e em torno de um marco legal de IA menos restritivo estão ocorrendo mais por um cálculo político do que técnico, a fim de que a regulação da IA saia enfim do papel, ainda durante a atual gestão presidencial. Logo, nem tudo o que aparenta ser é o que ocorrerá de fato na versão final do texto, visto que nada impede que novos apartes surjam a posteriori e o jogo vire novamente (como eu disse anteriormente no ensaio, apenas refletem o atual momento da IA no país).

2. Nem todo discurso é o que aparenta ser.

Caso mais emblemático é o do “aniversário” de dois anos do ChatGPT. Isto é, o que esteve em torno deste que foi “oprimeiro ponto de inflexão com a Inteligência Artificial, não só em termos de inovação, vantagens competitivas e novas potencialidades com a IA, mas das expectativas geradas para a Indústria e, principalmente, para o grande público consumidor. Isto é, se a IA Generativa do ChatGPT valeu à pena financeiramente, se houve retorno à altura do que se esperava e as conquistas alcançadas realmente corresponderam às expectativas. Do ponto de vista do usuário (UX) revelo adiante que sim. Mas e da perspectiva da indústria, quem realmente injetou grandes somas de dinheiro no produto esperando lucro? Estaria completamente satisfeita? Adianto que não, só parcialmente. E com certa razão, embora “explique mas não justifique satisfatoriamente” o que as empresas estão fazendo atualmente em termos de marketing e mobilização política.

Diante desse descompasso do que querem indústria e usuário, inexistiria, por conseguinte, outra forma de solução ou saída senão através da regulação da IA, segundo Kaufman. Entretanto, não seria justo exigir mais das empresas, considerando que estas “não têm incentivos legítimos para lidar com os danos causados pelos seus produtos”. Pois mesmo “depois de todo o hype gerado em torno da Inteligência Artificial, o valor alcançado ainda é difícil de mensurar, já que “somente 26% das empresas foram além do estágio de prova de conceito para gerar valor”, segundo estudo do BCG.

Seria, então, imprescindível ouvir também o outro lado (indústria e empresas). E com razão, visto que “parte relevante da pesquisa acadêmica em IA ou é em parceria com a indústria ou financiada pela indústria“. Todavia, em contrapartida,

a competição acirrada tem levado as empresas a flexibilizar os padrões éticos, lançando produtos no mercado sem os devidos testes de qualidade e segurança. As evidências das limitações da tecnologia são amplamente negligenciadas, dificultando distinguir o progresso genuíno do exagero (Kaufman, 2024).

* Ainda não compreendeu bem o dilema que está em jogo? Mormente para o Brasil, após a Cúpula do G20, no Rio de Janeiro? Agora que se sinaliza para Indústria no sentido de flexibilização do texto atual do PL2338 que trata da IA no país, por se entender que a atual proposta de marco legal está muito restritiva? Eu explico melhor e contextualizo.

Já foi dito em outras ocasiões, acompanhando diagnósticos, como o de Diogo Cortiz, que “o mercado de IA flutua entre o hype e a realidade” de promessas que nem sempre se cumprem ou se realizam na proporção em que se aguarda e/ou espera. Ilustrativo dessa “decepção” relativa é o que revela o 2024 State of AI Report, ao apurar que em menos de 3 anos “a porcentagem média de projetos de IA implantados caiu de 55,5% em 2021 para 47,4% em 2024, um declínio de 8 pontos percentuais”.

Estamos falando, então, de uma ampla gama de “promessas” com a Inteligência Artificial que vão desde o “ganho quase irrestrito de produtividade até a criação de uma inteligência que supera a humana“. Tratam-se de altas expectativas que fazem hoje do “mundo da IA” quase que um “conto de ficção” científica em que nada é impossível de ser realizado até que alguém vá lá e faça, tornando o impensável em um sonho possível; algo que, em contrapartida, contribui para que esqueçamos sobre suas limitações e a supervalorizemos quanto aos seus verdadeiros alcances e potencialidades dentro de sua realidade atual (leia-se, no atual estágio de desenvolvimento da tecnologia).

Por outro lado, esse conjunto de “promessas” – hoje em sua maioria imaginárias por ainda serem inalcançáveis no plano concreto, dando vazão ao termo Tecnoutopia – colaboram para o clima de corrida desenfreada, alarmismo e pânico moral instaurados, até mesmo por parte daqueles que o criticam (criti-hype), reforçando assim um círculo vicioso que só realça as partes negativas ao invés de atentar igualmente para os benefícios, as oportunidades e externalidades positivas da Inteligência Artificial.

Não por acaso se fala em FOMO ou medo das Big Techs (grandes empresas de tecnologia) em ficar para trás dos concorrentes dentro dessa corrida por sua liderança (sobretudo se seguirem à risca padrões éticos de conduta e, em contrapartida, perderem a disputa para a concorrência daquelas que não os seguem). Pois, ainda que a IA esteja gerando valor para seus desenvolvedores, parece que este quantum nunca é o suficiente ou não atinge exatamente a proporção esperada.

Daí o arrefecimento atual em torno do hype da IA, traduzido em números, pois “só 4% das empresas estão obtendo valor. O resto está queimando dinheiro“. Portanto, de acordo com aquele relatório sobre o Estado da IA em 2024, “dificuldades em estimar ou demonstrar o valor das tecnologias de IA para os negócios foram ou serão uma das principais barreiras para sua implementação

Paradoxo este ratificado por Glauco Arbix, coordenador do Observatório da Inovação do IEA USP, uma vez que os ganhos de produtividade (tanto os visíveis quanto os mensurados até aqui) com a IA são realmente pequenos, apesar de ser “tão disruptiva quanto a eletricidade, o computador ou a internet”. Amparado nos estudos de pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts ao estimarem que “são de apenas 0,53% em dez anos”.

O atual momento quanto aos futuros possíveis com a IA é, até então, de imprevisão, gerando mais cautela do que certezas absolutas. Logo, é preciso urgentemente determinar qual o estado atual da IA no tempo e no espaço. Isto é, no sentido de “situá-la” no tempo, dos verbos transitivos direto “estabelecer” e/ou pronominal “colocar (-se)”, “pôr” no seu devido lugar. Em outras palavras, “quais inovações realmente agregam valor e o que é apenas moda passageira“. A exemplo do que faz o AI Hype Index, “uma ferramenta visual que ajuda a refletir sobre o impacto real das inovações em IA, revelando a importância de entender o que realmente transforma nossa realidade e o que é apenas uma promessa inflada.

Haja vista que a motivação para existir um “termômetro ou medidor” do Hype da IA reside no fato que a cada nova funcionalidade de IA anunciada geram-se, ao invés de marketing positivo, tantas situações e alarmismos em potencial que se forjam novos perigos, ameaças planetárias e riscos existenciais à humanidade que, em seu somatório, acabam explicando alguns dos motivos pelos quais as reações públicas vêm logo no sentido de tentar barrar e/ou impedir o desenvolvimento da Inteligência Artificial. Justamente por conta do medo/temor causado!

A apreensão global reside exatamente nessa “dicotomia tecno-otimismo e tecno-ceticismo“. Isto é, a IA ser anunciada como uma tecnologia promissora, todavia ainda imatura, em fase de testes e que em futuro próximo não será segura e/ou confiável o suficiente, já que tende a sair do controle se não devidamente balizada por parâmetros éticos e supervisionada por humanos. O que dá margem a tão aguardada pela indústria – mas igualmente temida pela sociedade – Inteligência Artificial Geral (IAG) ou superinteligência.

Afinal, falsas expectativas e promessas quebradas tendem gerar mais decepção e ceticismo do que acolhimento público. Ou seja, ao invés de entusiasmo e boa receptividade, as tecnologias emergentes primeiro tendem a provocar desapontamento, desencanto e insatisfação, entre outras frustrações. Já que, em tese, baseado em um cálculo raso, os malefícios imediatamente provocados não compensariam os benefícios a serem colhidos ainda no longo prazo. O que a meu ver se trata de uma análise pobre, reducionista e ainda mais perniciosa do que a campanha de ganhos quase que irrestritos com a “nova” tecnologia. Visto que no plano hipotético-discursivo ela já estaria pronta para ser colocada no mercado e disponibilizada para o grande público; quando, na verdade, são ainda protótipos que estão em fase de testes, ajustes e treinamento técnico. O que, afinal, suscita o debate sobre ética e responsabilidade em IA, justamente por se tratar de um produto promissor, porém ainda inacabado.

Daí essa necessidade de situar a Inteligência Artificial no tempo e no espaço. Em outras palavras: precisar em que momento realmente estamos no uso e desenvolvimento da IA; e sobre qual modelo fundacional estamos debatendo, se brasileiro, europeu, chinês ou estadunidense (e que a partir deste vamos nos orientar).

Para tanto, nada mais exemplar da oscilação entre hype e realidade foi o boom da IA generativa com o ChatGPT nos dois últimos anos! Esse sim o primeiro turning point das Inteligências Artificiais por meio de um sistema conversacional que se comunica como, porém não é humano; mas que em breve poderá até ser superado por um novo produto rival de outro concorrente ou mesmo pelos novos ganhos a partir dos agentes de IA.

Contudo, essa é uma conversa a mais para a parte dois do ensaio.

Deixe um comentário