Da Mídia Sintética ao Slop: rumo à internet não feita mais por humanos

Slop, brainrot e enshittification. São tantos os termos que mais confundem do que esclarecem o que está acontecendo no nosso – agora invertido – universo tecnológico. Mas que juntos convergem na chamada Teoria de Internet Morta: nascida antes em tom conspiratório em fóruns on-line para agora sair do plano da fiçcão e se tornar realidade; fazendo com que nossas redes sociais estejam “cada vez mais lotadas de bots e conteúdo gerado por Inteligência Artificial – IA” e menos ainda por atividade humana. Como se pode ver pela simulação desde 2015, mormente após a chegada do ChatGPT em 2022.

Logo, antes fosse a produção atual de mídia sintética um conteúdo saudável, informativo e menos tóxico. Contudo, mais parece o lixo do lixo, a automação da automação da IA, tamanho é o grau de grotesco, futilidade e baixa qualidade do que é produzido artificialmente nos últimos anos, pouco contribuindo para agregar valor na formação do conhecimento e para a educação como um todo.

Enshittification ou “merdificação” da web é, então, o termo forte em inglês para explicar o fenômeno da degradação dos produtos e serviços digitais como vem ocorrendo na atualidade, mas que vai além da mera digitalização e transformação digital de outrora. Por isso “o neologismo criado pelo escritor de ficção científica e crítico de mídia Cory Doctorow” em 2022 e que acaba de dar nome a um livro que tem como premissa o fato do mercado ter se tornado tão grande e minar a concorrência dos demais ao ponto de poder “degradar seus serviços e prejudicar os usuários sem grandes consequências para os seus negócios“.

brainrot ou literalmente “deterioação cerebral” veio a ser palavra do ano em 2024 segundo o dicionário Oxford, repercutindo o tamanho de sua dimensão global. Esse constitui o fenômeno associado a uma série de transtornos, déficits de atenção, dificuldades de concentração e memória, picos de ansiedade e fadiga mental decorrentes do uso excessivo e indiscriminado de redes sociais em grandes plataformas digitais. Sobretudo entre o público jovem e de histórico médico mais susceptível de ser influenciado no campo do comportamento, da linguagem, das relações interpessoais e da tomada de decisão.

Curioso notar que esse “empobrecimento do conhecimento” e consequente deterioração é generalizado, pois não se limita à mente humana. Visto que hoje também já afeta o “cérebro” das máquinas. Significa dizer que a exposição ao conteúdo de redes sociais afeta inclusive o desempenho cognitivo de LLMs ou grandes modelos de linguagem que fazem com que as máquinas respondam e se comportem como se fossem pessoas de carne e osso. Fruto da descoberta, revelada em pesquisa, sobre “inteligência artificiais que perdem a capacidade de raciocínio, memória e alinhamento ético quando treinadas com textos virais e sensacionalistas”. Logo, empobrecidos, de pouco ou nenhum valor agregado.

Explica-se mais a miúdo: ao buscar informação em base de dados desestruturados, de pouca confiança, sem nenhuma curadoria e/ou moderação de conteúdo, as máquinas têm muito mais dificuldade para formar seu conhecimento explícito (isto é, aquele não é pessoal e intuitivo, fruto das experiências subjetivas vividas por pessoas de verdade, mas apenas no que lhe é transmitido e consegue ser codificado). É por tal lógica que agentes de Inteligência Artificial também estariam se contaminando por esse conteúdo tosco, grosseiro, de baixa qualidade informacional.

À luz desse cenário, especialistas como Cezar Taurion alertam, primeiro, para a formação de um conhecimento homogêneo, padronizado pelas máquinas, já que isento do diferencial que é a criatividade humana (dado que as máquinas respondem não porque sabem o que estão fazendo, mas aquilo que é mais provável de vir a ser uma resposta coerente para o usuário). E, em seguida, apontam para a tendência futura de termos mais automação e robôs do que humanos na internet. Tornando o conteúdo produzido sinteticamente a principal fonte de conhecimento para a humanidade nas próximas gerações. Ou seja, não sabendo mais distinguir o que é crível ou não, se é real ou fantasia, e não fazendo mais sentido “o habitual ver para crer”. O que, fatalmente, irá levar ao desfazimento dos relacionamentos íntimos e das conexões humanas. Incorrendo, por conseguinte, no perigo de mudança ou mesmo de inversão na narrativa (ou seja, em uma história não mais contada por pessoas e sim revisitada por agentes e sistemas artificiais).

Sendo assim, países como a China, por meio da Administração do seu Cyber Espaço, já vem se mobilizando contra “esse novo tipo de praga” que hoje assola o ambiente digital na forma de deepfakes, desinformação e conteúdo homogêneo através de uma infinidade de bots ou robôs que impulsionam conteúdos automatizados e hipersegmentados. O que justifica a inclusão de mais de um termo para que sirva de reforço sobre o “impacto negativo das imagens bizarras feitas com IA, com o único objetivo de confundir“. E também de enganar. A exemplo da enxurrada de vídeos aparentemente inofensivos de pets engraçadinhos dançando e imagens surreais de Jesus Cristo com corpo de camarão (chamados de AI Slop ou lixo da Inteligência Artificial), mas que basta um clique ou para monetizar as plataformas, ou para que grupos de terceiros apliquem golpes e cometam crimes cibernéticos.

Releitura de imagem religiosa que invadiu as redes — Foto: Autor desconhecido/IA. Fonte: Época Negócios

Não se trata, portanto, de priorizar a proibição pela proibição, na forma de censura ou restrição da liberdade de expressão por um regime centralizador excessivamente preocupado com dancinhas, conteúdos fofos, culto à personalidade e exaltação ao luxo por certas celebridades na internet, como comumente são vistas as tentativas de maior regulação mundo a fora. E sim de desestímulo ao impulsionamento de um tipo de conteúdo que, embora fútil e consuma mais tempo de tela, é o que mais provoca engajamento na atualidade. Daí o perigo de se popularizar e normalizá-lo.

Eis, então, alguns dos muitos riscos contemporâneos “da antropomorfização da IA, que pode gerar dependência emocional e distorcer nossa percepção da realidade”. Estamos falando também a respeito de não alimentar temor e desconfianças desnecessárias, no sentido de se querer manter “controle absoluto sobre o avanço tecnológico” (sobretudo daquilo que é produzido e postado on-line diariamente), mas de se obter uma visão informada; portanto, pragmática e mais realista quanto aos problemas a serem enfrentados nesse cenário de artificialidades seguido de desumanização da internet. E por que não, do mundo digital como um todo que hoje se auto replica e funciona como se fosse um ecossistema.

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